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As altas rodas nesses postos de comando e em torno deles são freqüentemente consideradas termos daquilo que seus membros possuem: têm uma parte maior que a dos outros nas coisas e experiências mais altamente valorizadas. Desse ponto de vista, a elite é simplesmente o grupo que tem o máximo que se pode ter, inclusive, de modo geral, dinheiro, poder e prestígio — bem como todos os modos de vida que a estes levam.1 Mas a elite não simplesmente constituída dos que têm o máximo, pois não o poderiam ter se não fosse pela sua posição nas grandes instituições, que são as bases necessárias do poder, da riqueza e do prestígio, e ao mesmo tempo constituem os meios principais do exercício do poder, de adquirir e conservar riqueza, e de desfrutar as principais vantagens do prestígio.

Entendemos como poderosos naturalmente os que podem realizar sua vontade, mesmo com a resistência de outros. Ninguém será, portanto, realmente poderoso a menos que tenha acesso ao comando das principais instituições, pois é sobre esses meios de poder institucionais que os realmente poderosos são, em primeiro lugar, poderosos. Os altos políticos e autoridades-chaves do governo controlam esse poder institucional, o mesmo ocorrendo com almirantes e generais, e os principais donos executivos das grandes empresas. Nem todo o poder, é certo, está ligado e é exercido por meio dessas instituições, mas somente dentro delas e através delas o poder será mais ou menos contínuo e importante.

A riqueza também é adquirida e conservada através das instituições. A pirâmide da riqueza não pode ser compreendida apenas em termos dos muito ricos, pois as grandes famílias milionárias são atualmente, como mais adiante veremos, complementadas pelas grandes empresas da sociedade moderna: todas as famílias muito ricas foram e são intimamente ligadas — sempre juridicamente, e por vezes também administrativamente — a uma das empresas multimilionárias.

A empresa moderna é a principal fonte de riqueza, mas no capitalismo de nossos dias a política também abre e fecha muitas estradas para a fortuna. O volume e a fonte de renda, o poder sobre os bens de consumo e o capital produtivo, são determinados pela posição dentro da economia política. Se nosso interesse pelos mito ricos vai além de seu consumo esbanjador ou sovina, devemos examinar suas relações com as modernas formas de propriedade e com o Estado, pois essas relações determinam as oportunidades que têm os homens de conseguir riquezas e receber altos rendimentos.

O grande prestígio segue cada vez mais as principais unidades institucionais da estrutura social. É evidente que o prestígio depende, e por vezes decisivamente, do acesso às máquinas de publicidade que são hoje uma característica central e normal de todas as grandes instituições da América moderna. Além disso, um traço dominante dessas hierarquias de empresa, Estado e organização militar é serem as suas principais posições cambiáveis entre si. Um dos resultados disso é a natureza cumulativa do prestígio. O desejo de prestígio pode basear-se inicialmente nas funções militares, ser em seguida expresso e ampliado por uma instituição educacional orientada por dirigentes de empresas, e finalmente desfrutado na ordem política, para o General Eisenhower e aqueles que ele represente, o poder e o prestígio finalmente se encontram no auge da carreira. Como a riqueza e o poder, o prestígio é cumulativo: quanto mais temos, mais podemos conseguir. Também esses valorez tendem a se traduzir uns nos outros: o rico verifica ser-lhe mais fácil conseguir poder do que o pobre; os que têm um status comprovam ser mais fácil controlar as oportunidades de adquirir fortuna do que os que não têm.

Se tomarmos os cem homens mais poderosos da América, os cem mais ricos, os cem mais celebrados e os afastarmos das posições institucionais que hoje ocupam, dos recursos de homens, mulheres e dinheiro, dos veículos de comunicação em massa que hoje se voltam para eles — seriam então sem poder, pobres e não celebrados. Pois o poder não pertence a um homem. A riqueza não se centraliza na pessoa do rico. A celebridade não é inerente a qualquer personalidade. Ser célebre, ser rico, ter poder, exige o acesso às principais instituições, pois as posições institucionais determinam em grande parte as oportunidades de ter e conservar essas experiências a que se atribui tanto valor.



Notas:

1 A idéia estatística de escolher um valor e dar àqueles que mais o possuem o nome de elite vem, na época moderna, do economia italiano Pareto, que assim formula sua idéia central: "Suponhamos que em todo ramo de atividade humana cada indivíduo receba um índice que represente um sinal de sua capacidade, mais ou menos como se dão notas nas várias matérias na escola. O tipo mais alto de advogado, por exemplo, receberá 10. O que não consegue um cliente, receberá 1 — reservando-se o zero para o que for um idiota consumado. Ao homem que ganhou milhões — honesta ou desonestamente — daremos 10. Ao homem que ganhou milhares, daremos 6; ao que conseguiu livrar-se da pobreza, 1, atribuindo o zero ao que nela continuou... Teremos assim uma classe de pessoas com maiores índices em seu ramo de atividade, e a essa classe damos o nome de elite." Vilfredo Pareto, A Mente e a Sociedade. Os que seguem essa interpretação terão no final das contas não uma elite, mas um número correspondente ao número de valores que selecionam. Cmo muitas formas abstratas de raciocínio, esta é útil porque nos força a pensar em termos bem definidos. Para uma utilização proveitosa desse métdo, o leitor poderá consultar a obra de Harold D. Lasswell, particularmente Politics: Who Gets What, When, How (N. York, McGraw-Hill, 1936); e para uma utilização mais sistemática, H. D. Lasswell e ABraham Kaplan, Power and Society (New Haven: Yale University Press, 1950).
C. Wright Mills (1916-1962) foi um sociólogo americano. Em seus vários trabalhos, analisou a dinâmica das classes sociais e da burocracia, além do relacionamento entre a teoria e a história na análise sociológica.
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