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Não é minha tese a de que em todas as epocas da história humana e em todas as nações, uma minoria criadora, uma classe dominante, uma elite onipotente, condiciona os fatos históricos. Essas afirmações, quando cuidadosamente examinadas, revelam-se meras tautologias,1 e mesmo quando não o são, tem um caráter tão geral que se tornam inúteis na tentativa de compreender a história do presente. A definição mínima da elite do poder como os que tomam as decisóes de importancia a serem tomadas não significa que os membros dessa elite sejam sempre os fazedores da história, nem, por outro lado, que jamais o sejam. Não devemos confundir a concepção da elite, que desejamos definir, como uma teoria sobre seu papel, ou a teoria de que seja a mola da história de nossa epoca. Definir a elite, por exemplo, como "os que governam a America" é menos definir urn conceito do que levantar uma hip6tese sObre o papel e o poder dessa elite. Não importa a nossa definição, o poder de seus membros esta sujeito a variagóes histOricas. Se, dogmaticamente, tentarmos incluir nela essa variação, estaremos limitando ingenuamente o use de um conceito necessário. Se insistirmos em que a elite seja definida como uma classe rigorosamente coordenada que domina de forma continua e absoluta, estaremos afastando da interpretação muitos aspectos que uma definição mais modesta poderia abrir a observação. Em suma, nossa definição da elite do poder não pode encerrar um dogma sObre o grau e a forma de poder que os grupos dominantes têm em tOda parte. E muito menos deve permitir que se infiltre em nossa discussão uma teoria da história.

Durante a maior parte da existência humana, as mudanças históricas não foram visiveis aos que delas participavam, ou mesmo levavam a cabo. O Egito e Mesopotâmia antigos, por exemplo, duraram cerca de 400 geraçóes com apenas pequenas modificações em sua estrutura básica. Isso representa um período de tempo seis vezes e meia o de tOda a Era Cristã, que tem somente umas 60 gerações; e cerca de 80 vezes maior do que as cinco geraçóes da existencia dos Estados Unidos. Mas hoje o ritmo de mudança é tão rapido, e os meios de observação tão acessiveis, que a influencia mútua entre acontecimento e decisão parece, com freqiiencia, ser historicamente bem visível, bastando apenas que olhemos cuidadosamente e de um ponto de observação adequado.

Quando os jornalistas, que tudo sabem, nos dizem que "os acontecimentos, não os homens, modelam as grandes decisOes", estão fazendo eco à teoria da história como Fortuna, Acaso, Destino ou obra da Mão Invisivel. Pois "acontecimentos" é apenas uma palavra moderna para essas ideias antigas, que isolam o homem da criação do processo histórico, já que tOdas levam a acreditar que a história se faz à revelia dos homens. Que a história é uma correnteza sem dominio; que dentro dela há ação, mas não há feitos; que a história é apenas acontecimento e fato que ninguem pretendeu.2

O curso dos acontecimentos em nossa época depende mais de uma série de decisões humanas do que de qualquer destino inevitável. O sentido sociológico de "destino" e simplesmente este: quando as decisões são, numerosas e de pequenas consequências, todas elas se somam dando um resultado não pretendido pelo homem — a história como destino, portanto. Mas nem todas as épocas são igualmente fatídicas. À medida que o círculo dos que decidem se estreita, os meios de decisão se centralizam e as conseqüências das decisões se tornam enormes, então o curso dos grandes acontecimentos freqüentemente depende das decisões de determinados círculos. Isso não significa necessariamente que o mesmo círculo de homens passa de um acontecimento a outro, de modo que toda a história seja apenas um enredo de sua autoria. O poder da elite não significa necessariamente que a história também não se modele por uma série de pequenas decisões, não conscientes. Não significa que uma centena de pequenas combinações, concessões e adaptações não se possam fundir para constituir a política existente e o acontecimento vivo. A idéia da elite do poder não subentende nada sobre o processo de tomar decisões: é um esforço de deliminar as áreas sociais dentro das quais se desenrola este processo, qualquer que seja seu caráter. É um conceito sobre quem está envolvido pelo processo.

O grau de previsão e controle dos que participam das decisões de importância pode também variar. A idéia de uma elite do poder não significa que as estimativas e riscos calculados que servem de base às decisões não estejam freqüentemente errados, e que as conseqüências sejam por vezes — na realidade, freqüentemente — imprevistas. Muitas vezes, os que tomam decisões são iludidos pela sua incapacidade e cegados pelos seus próprios erros.

Não obstante, em nossa época, chega o momento crucial, e então os pequenos círculos de fato decidem ou deixam de decidir. Em ambos os casos, são uma elite do poder. O lançamento da bomba-A sobre o Japão foi um desses momentos; a decisão sobre a Coréia foi outro; a confusão sobre Quemoy e Matsu, e antes de Dienbienphu, foram desses momentos; a seqüência de manobras que envolveram os Estados Unidos na II Guerra Mundial foi um desses momentos. Não é verdade que parte da história de nossa época se compõe de tais momentos? E não é isso o que se quer dizer, ao afirmar que vivemos numa época de grandes decisões, de poder decisivamente centralizado?

A maioria de nós não procura dar um sentido à nossa idade acreditando, como os gregos, numa repetição eterna, nem pela fé cristã numa salvação futura, nem por qualquer marcha firme do progresso humano. Muito embora não reflitamos sobre tais assuntos, possivelmente acreditamos, com Burckhardt, que vivemos numa simples sucessão de acontecimentos, que a continuidade pura é o único princípio da história. A história é apenas um fato após outro, não tem sentido, não representa a realização de uma determinada trama. É certo, evidentemente, que nossa percepção da história da época é afetada pela crise. Mas raramente olhamos além da crise imediata ou das crises que acreditamos estarem à nossa frente. Não acreditamos no destino ou na providência e supomos, sem falar nisso, que "nós" — como nação — podemos modelar decisivamente o futuro, mas que "nós" como indivíduos por alguma razão não o podemos fazer.

Qualquer sentido que a história tenha, "nós" teremos de criá-lo pelas nossas ações. Não obstante, a verdade é que embora estejamos todos dentro da história, nem todos possuímos igual poder de fazê-la. Pretender o contrário é um absurdo sociológico e uma irresponsabilidade política. É absurdo porque qualquer grupo ou indivíduo é limitado, primeiramente, pelos meios técnicos e institucionais de poder à sua disposição. Não temos todos o mesmo acesso aos meios de poder que existem, nem influência igual sobre sua aplicação. Pretender que "nós" sejamos todos fazedores da história é uma irresponsabilidade porque obscurece qualquer tentativa de localizar a responsabilidade pelas decisões importantes dos homens que têm acesso aos meios do poder.

Mesmo num exame superficial da história da sociedade ocidental aprendemos que o poder dos que tomam decisões é, acima de tudo, limitado pelo nível da técnica, pelos meios do poder, violência e organização que predominam em determinada sociedade. Quanto a isso, aprendemos também que há uma linha reta percorrendo toda a história do Ocidente; que os meios de opressão e exploração, de violência e destruição, bem como os meios de produção e reconstrução, foram progressivamente ampliados e cada vez mais centralizados.

À medida que os meios institucionais de poder e os meios de comunicação que os unem se tornaram mais eficientes, os homens que os dominavam viram-se no comando de instrumentos de governo sem precedente na história da humanidade. E ainda não atingimos o auge de sua evolução. Já não podemos confiar, nem nos confortar, nos altos e baixos históricos dos grupos dominantes de épocas anteriores. Nesse sentido, Hegel está certo: aprendemos com a história que não é possível aprender com ela.

Para cada época e cada estrutura social devemos procurar uma resposta à questão do poder da elite. Os fins dos homens são, freqüentemente, apenas esperanças, mas os meios são fatos mais ou menos controlados pelos homens. É por isso que todos os meios de poder tendem a se tornar fins para a elite que os comanda. E é por isso que podemos definir a elite do poder em termos dos meios do poder — como sendo os que ocupam os postos de comando. As principais questões sobre a elite americana de hoje — sua composição, sua unidade, seu poder — devem ser examinadas dando-se a devida atenção aos terríveis meios de poder à sua disposição. César podia fazer menos com Roma do que Napoleão com a França; Napoleão menos com a França do que Lênin com a Rússia, e Lênin menos com a Rússia do que Hitler com a Alemanha. Mas o que era o poder de César, em seu auge, comparado com o poder do círculo interno em mudança da Rússia? Os homens desses dois círculos podem fazer desaparecer grandes cidades numa única noite, e em poucas semanas transformar continentes inteiros em desertos termonucleares. O fato de que o poder tenha sido enormemente ampliado e decisivamente centralizado significa que as decisões dos pequenos grupos são hoje de maiores conseqüências.

Mas saber que os altos postos da moderna estrutura social permitem agora maiores decisões de importância, não é saber que a elite ocupante de tais postos é que faz a história. Mesmo concordando que as estruturas integradas, econômica, militar e política, são feitas de modo a permitir essas decisões, podemos sentir ainda que "elas se governam a si mesmas", que os homens nos altos postos são, em suma, levados às suas decisões pela "necessidade", o que presumidamente significa pelos papéis institucionais que desempenham e pela situação dessas instituições na estrutura total da sociedade.

Determina a elite o papel que desempenha? Ou os papéis que as instituições colocam ao seu alcance determinam o poder da elite? A resposta geral — e nenhuma resposta geral é suficiente — é que nos diferentes tipos de estruturas e épocas as elites têm relação diferente com os papéis que desempenham: nada, na natureza da elite ou na natureza da história, sugere uma resposta. É verdade também que se a maioria dos homens e mulheres assume um papel e o desempenha como se espera que faça, em virtude de sua posição, é isso exatamente o que a elite não precisa fazer, e freqüentemente não faz. Pode discutir a estrutura, a posição que ocupa dentro dela, ou a forma pela qual deve desempenhar essa posição.

Ninguém pediu ou permitiu a Napoleão que mandasse o Parlamento para casa, no 18 Brumário, e mais tarde, transformasse seu consulado num império.3 Ninguém pediu ou permitiu a Adolf Hitler proclamar-se "Líder e Chanceler" no dia em que morreu o Presidente Hindemburgo, abolir ou usurpar funções fundindo a presidência e a chancelaria. Ninguém pediu ou permitiu a Franklin D. Roosevelt tomar a série de decisões que levou à entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial. Não foi a "necessidade histórica", mas um homem chamado Truman que, com alguns outros homens, decidiu lançar uma bomba sobre Hiroxima. Não foi a necessidade histórica, mas uma discussão dentro de um pequeno círculo que derrotou a proposta do almirante Radford de bombardear tropas antes de Dienbienphu. Longe de depender da estrutura das instituições, as elites modernas podem esmagar uma estrutura e fazer outra na qual desempenhem papéis totalmente diferentes. De fato, essa destruição e criação de estruturas institucionais, com todos os seus meios de poder, quando os acontecimentos parecem ser favoráveis, é exatamente o que ocorre com a "grande liderança", ou, quando os acontecimentos não marcham bem, com a grande tirania.

Alguns homens da elite são, decerto, determinados tlpicamente pelo papel, mas outros são, por vezes, os que determinam esse papel. Determinam não apenas o papel que desempenham, mas o papel de milhões de outros homens. A criação de papéis de importância capital e seu desempenho também capital ocorre mais prontamente quando. as estruturas sociais estão sofrendo transições históricas. É claro que o desenvolvimento internacional dos Estados Unidos, até chegarem a ser uma das duas "grandes potências" — junto com os novos meios de aniquilação e de domínio psíquico e administrativo — fez deles, nos anos médios do século XX, precisamente esse elemento histórico capital.

Não há nada na história que nos leve a crer ser impossível a uma elite do poder fazê-la. Na verdade, a vontade desses homens é sempre limitada, mas jamais os limites foram tão amplos, pois jamais os meios de poder foram tão grandes. É isso que torna nossa situação tão precária, e torna ainda mais importante uma compreensão dos poderes e limitações da elite americana. O problema da natureza e do poder dessa elite é atualmente a única forma realista e séria de levantar novamente o problema do governo responsável.



Notas:

1 Como no caso, bastante notavel, de Gaetano Mosca, A Classe Dominante. Para uma penetrante analise de Mosca, ver Fritz Morstein Marx, "The Bureaucratic State", Review of Politics, vol. I, 1939. Cf. também Mills, "On Intellectual Craftsmanship", abril de 1952, mimeografado, Columbia College, 1955.

2 Cf. Karl Löwith, Meaning in History (University of Chicago Press, 1949), pags. 125 e segs., para observagOes concisas e penetrantes sObre as varias principais filosofias da histeria.

3 Alguns desses aspectos são extraídos de Gerth e Mills, Character and Social Structure. Sobre os homens que determinam seu papel e os que são por êle determinados, ver também Sidney Hook, O Herói na História.
C. Wright Mills (1916-1962) foi um sociólogo americano. Em seus vários trabalhos, analisou a dinâmica das classes sociais e da burocracia, além do relacionamento entre a teoria e a história na análise sociológica.
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