libertyzine
15 de fev de 2010
17:59
Magoaria-me profundamente aquele que me chamasse de desonesto ou mentiroso. Já se me chamassem de anti-patriota, não conseguiriam arrancar qualquer expressão de mim. "Então você não ama seu país?" Esta é uma pergunta que requer resposta mais elaborada.

A precoce abolição da servidão na Inglaterra, o precoce desenvolvimento de instituições relativamente livres e o maior reconhecimento das demanas populares após a decadência do feudalismo ter separado as massas do solo são traços da vida inglesa que se podem recordar com orgulho. Quando se decidiu que qualquer escravo que pusesse os pés na Inglaterra seria imediatamente libertado, quando a importação dos escravos às Colônias foi cessada, quando os vinte milhões foram pagos pela emancipação dos escravos nas Índias Ocidentais, e quando, embora imprudentemente, uma esquadra foi mantida para impedir o comércio de escravos, nossos compatriotas executaram feitos dignos de admiração. E quando a Inglaterra deu abrigo a refugiados políticos e assumiu as causas de estados menores que lutavam pela liberdade, novamente exibiu nobres traços que excitam afeição. Mas existem também traços, infelizmente exibidos com mais frequência ultimamente, que inspiram o contrário. A contemplação dos atos através dos quais a Inglaterra adquiriu mais de oitenta possessões - assentamentos, colônias, protetorados etc - não estimulam sentimentos de satisfação. A transição de missionários para agentes residentes, então para oficiais armados, então para punições àqueles que resistem seu jugo, terminando na chamada "pacificação" - tais processos de anexação, ora graduais, ora repentinos, tais quais o da nova província indiana e o de Barotzelândia, a qual foi declarada colônia britânica com tanta apreciação aos desejos de seus habitantes quanto aos dos animais que lá viviam - não excitam simpatias pelos seus perpetradores. O amor a meu país não é estimulado em mim ao lembrar que, quando nosso primeiro-ministro declarou que nós tínhamos uma dívida de honra para com o quediva de reconquistar o Sudão, nós, após a reconquista, imediatamente passamos a administrá-lo em nome da rainha e do quediva - na prática anexando-o; também não me apraz lembrar que, após prometer pelas bocas de dois ministros coloniais que não interferiríamos nas questões internas do Transvaal, nos pusemos a insistir em certos arranjos eleitorais e fizemos da resistência a desculpa para uma guerra devastadora.1 Também não me parecem dignos de amor o caráter nacional demonstrado pela ovação popular a um líder demagogo, ou pela concessão de uma honraria universitária a um arqui-conspirador, ou pelo ruidoso aplauso com que universitários saudaram alguém que zombou da "piosa retidão" daqueles que se opunham a seus planos de agressão. Se porque meu amor por meu país não sobrevive a essas e outras experiências adversas eu sou chamado de anti-patriota, estou contente por sê-lo.

A mim o grito de "Meu país, esteja ele certo ou errado!" parece detestável. Ao associá-lo com o amor ao país, o sentimento expresso pela mensagem ganha certa justificação. Analise-o mais cuidadosamente, contudo, e vemos que tal sentimento é dos mais vis. Observemos os casos alternativos.

Suponhamos que nosso país esteja do lado justo - digamos, resistindo a uma invasão. Então a idéia e o sentimento expressados na mensagem são virtuosos. Pode-se não apenas dizer que a auto-defesa é justificada, mas também que é um dever. Agora suponhamos, em contrário, que nosso país seja o agressor - que tenha tomado posse do território alheio, ou que esteja forçando pelas armas a entrada de mercadorias numa nação que não as deseja, ou que esteja dando suporte a alguns de seus agentes na "punição" dos retaliadores. Suponhamos que o país esteja envolvido em ações as quais, hipoteticamente, são admitidamente erradas. Qual é a implicação daquela mensagem, então? O certo está do lado daqueles que nos opõem e o errado está do nosso lado. Como, neste caso, deve-se expressar o desejo patriota? Evidentemente as palavras se devem manter - "Abaixo com o certo, viva o errado!". Em outras circunstâncias, porém, essa combinação de objetivos implica o auge da perversidade. Nas mentes de homens do passado existia, e ainda existe na mente de muitos, a crença em um mal personalizado - num ser que viajava por todo o mundo lutando contra o bem e ajudando o mal a triunfar. Pode o objetivo dessa criatura ser melhor expressado que pelas palavras "Viva o errado, abaixo o certo"? Os chamados patriotas realmente aprovam esse brado?

Alguns anos atrás, expressei o sentimento - sentimento anti-patriota, sem dúvida ele será chamado - de forma um tanto surpreendente. Era época da segunda guerra afegã, quando, em busca do que se pensava serem "nossos interesses", invadimos o Afeganistão. Notícias reportavam que nossas tropas estavam em perigo. No Clube Ateneu, um conhecido militar - então capitão, agora general - chamou minha atenção para um telegrama que continha tais notícias, lendo-o para mim como se eu devesse dividir sua ansiedade. Eu o espantei ao dizer: "Quando homens se deixam contratar para atirar em outros homens, sem nem mesmo se inquirir a respeito da justiça de sua causa, eu não me importo se eles mesmos forem baleados."

Eu prevejo a exclamação que será evocada. Tal princípio, se dirá, tornaria impossível a existência de um exército e um governo sem poderes. Não seria possível que cada soldado usasse seu julgamento a respeito do propósito pelo qual a batalha é travada. A organização militar seria paralisada e nosso país cairia perante o primeiro invasor.

Não tão rápido, eu responderia. Para uma guerra um exército estaria tão disponível quanto agora está - para uma guerra de defesa nacional. Em tal guerra, cada soldado teria consciência da justiça de sua causa. Ele não estaria impingindo a morte a homens cujos feitos, bons ou maus, ele nada saberia, mas a homens que seriam agressores manifestos a ele e a seus compatriotas. Somente uma guerra de agressão seria negada, não uma guerra de defesa.

Claro que se pode dizer, com razão, que se não há guerras agressivas, não pode haver guerras defensivas. Não obstante, está claro que, embora uma nação possa se limitar a guerras defensivas, outras podem não seguir o mesmo caminho. Portanto o princípio permanece válido.



Notas:

1 Continuamos a ouvir a repetida desculpa de que foram os bôeres quem começaram a guerra. No extremo oeste dos Estados Unidos, onde todo homem carrega a vida na própria mão e as técnicas de luta são bem compreendidas, sabe-se que é o agressor que primeiro move sua mão em direção à arma. A aplicação é óbvia.
Herbert Spencer (1820-1903) foi um filósofo liberal inglês. Contribuiu para várias áreas do conhecimento, como a sociologia, a filosofia política, a ética, a psicologia e a metafísica.
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