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Primeira parte da entrevista concedida pela romancista Ayn Rand à revista Playboy em 1964.

PLAYBOY: Senhorita Rand, seus romances, ensaios e, em especial, seu polêmico best-seller, A Revolta de Atlas, apresentam uma visão de mundo cuidadosamente projetada e consistente. Efetivamente, são expressões de um abrangente sistema filosófico. O que você esperava alcançar com essa nova filosofia?

RAND: Eu buscava fornecer aos homens - ou seja, àqueles que se dignam a pensar - uma visão integrada, consistente e racional da vida.

PLAYBOY: Quais são as premissas básicas do objetivismo? Em que ponto ele começa?

RAND: Ele parte do axioma de que a existência existe, o que significa que uma realidade objetiva existe independentemente de qualquer observador ou das emoções, sentimentos, desejos, expectativas ou medos do observador. O objetivismo defende que a razão é o único método pelo qual o homem pode apreender a realidade e que ela é seu único guia de ação. Razão, aqui, significa a faculdade que identifica e integra o material percebido pelos sentidos do homem.

PLAYBOY: Em A Revolta de Atlas, o herói John Galt declara: "Eu juro - por minha vida e por meu amor a ela - que eu nunca viverei por outro homem, nem pedirei para que outro homem viva por mim." Como essa declaração se relaciona aos seus princípios básicos?

RAND: A declaração de Galt é um resumo dramático da ética objetivista. Qualquer sistema ético é baseado e derivado, implícita ou explicitamente, de uma metafísica. A ética derivada da base metafísica do objetivismo defende que, dado que a razão é a ferramenta básica do homem para sua sobrevivência, a racionalidade é sua maior virtude. Fazer uso de sua mente, perceber a realidade e agir de acordo com ela é o imperativo moral humano. O padrão de valor da ética objetivista é a vida do homem - a sobrevivência do homem como homem -, ou seja, aquela que a natureza de um ser racional necessita para sua sobrevivência apropriada. A ética objetivista, essencialmente, propõe que o homem existe em prol de si mesmo, que a busca de sua felicidade é seu propósito moral mais elevado, que ele não deve sacrificar a si mesmo em benefício alheio nem sacrificar os outros em benefício próprio.

PLAYBOY: Que tipo de moralidade é derivada disso, em termos de comportamento individual?

RAND: Isso é mostrado em detalhes em A Revolta de Atlas.

PLAYBOY: A heroína de A Revolta de Atlas era, em suas palavras, "completamente incapaz de experimentar a sensação de culpa fundamental". É possível existir um sistema moral sem algum tipo de culpa?

RAND: A palavra mais importante na citação destacada por você é "fundamental". O termo "culpa fundamental" não indica a capacidade de julgar as próprias ações e arrepender-se de ações erradas que tenham sido cometidas. A expressão indica que o homem é maligno e culpado por natureza.

PLAYBOY: Quer dizer, o pecado original?

RAND: Exatamente. É o conceito do pecado original que minha heroína, eu ou qualquer outro objetivista é incapaz de aceitar ou jamais experimentar emocionalmente. O conceito de pecado original é uma negação da moralidade. Se o homem é culpado por natureza, não há qualquer escolha. Sem escolha, a questão não pertence à alçada da moralidade. A moralidade trata apenas da esfera de livre arbítrio do homem - apenas aquelas ações que estão abertas às suas escolhas. Considerar o homem naturalmente culpado é uma contradição em termos. Minha heroína seria capaz de experimentar culpa por conta de ações específicas. No entanto, sendo uma mulher de grande estatura moral e de auto-estima, ela se certificaria de que jamais tivesse que sentir culpa por seus atos. Ela agiria de forma plenamente moral e, portanto, não aceitaria culpa imerecidamente.

PLAYBOY: Em A Revolta de Atlas, um de seus personagens principais é questionado: "Que tipo de ser humano é o mais corrupto?" Sua resposta é surpreendente: ele não diz que é um sádico, um assassino, um maníaco sexual ou um ditador; diz que é "um homem sem um propósito". A maioria das pessoas aparentemente atravessa suas vidas sem qualquer propósito claramente definido. Você as considera corrompidas?

RAND: Sim, até certo ponto.

PLAYBOY: Por quê?

RAND: Porque tal aspecto de seus caráteres está na raiz e é a causa de todos os males mencionados em sua pergunta. O sadismo, as ditaduras, ou quaisquer formas de males, são consequências da fuga do homem da realidade. São consequências de seu não-pensar. Um homem sem propósito é um homem movido por sentimentos aleatórios ou desejos desconhecidos e é capaz de qualquer espécie de mal, porque está totalmente afastado do controle de sua própria vida. Para estar em controle de sua vida, é necessário ter um propósito - um propósito produtivo.

PLAYBOY: Não se pode dizer que Hitler e Stálin, dois tiranos, estavam em pleno controle de suas vidas e que possuiam propósitos bastante claros?

RAND: Certamente não. Perceba que ambos terminaram, literalmente, como psicóticos. Eram homens sem qualquer auto-estima e, portanto, odiavam a existência. A psicologia que se aplica a eles está resumida no personagem de James Taggart em A Revolta de Atlas. O homem que não possui um propósito, mas precisa agir, age para destruir os outros. Isso não é o mesmo que ter um propósito produtivo ou criativo.

PLAYBOY: Se uma pessoa organiza sua vida em torno de um propósito único e claramente definido, ela não corre o risco de se tornar seus horizontes demasiadamente limitados?

RAND: Muito ao contrário. Um propósito central serve para integrar todas as outras preocupações da vida do homem. Estabelece uma hierarquia, as importâncias relativas de seus valores, poupa-o de conflitos interiores sem sentido, permite que ele desfrute de sua vida de maneira ampla e que ele transfira esse desfrute para todas as áreas abertas a sua mente; por contraste, um homem sem propósito está perdido no caos. Não conhece seus valores. Não sabe como fazer julgamentos. Não é capaz de discernir o que é ou não importante para si e, dessa forma, move-se impotentemente à mercê de estímulos ao acaso ou de impulsos momentâneos. Não é capaz de desfrutar de nada. Passa sua vida buscando valores que jamais encontrará.

PLAYBOY: A tentativa de eliminar da vida quaisquer formas de impulsos e de agir de maneira totalmente racional não pode levar a uma existência seca e infeliz?

RAND: Devo dizer honestamente que não sei do que você está falando. Vamos definir nossos termos. A razão é a ferramenta do homem de conhecimento, a faculdade que o torna capaz de perceber os fatos da realidade. Agir racionalmente significa agir de acordo com os fatos da realidade. Emoções não são ferramentas cognitivas. O que você sente não transmite qualquer conhecimento a respeito dos fatos; transmite apenas a sua estimativa dos fatos. As emoções são o resultado de julgamentos de valor; são causadas por suas premissas básicas, que você possui consciente ou subconscientemente, que podem estar certas ou erradas. Um impulso é uma emoção cuja causa você desconhece e não pretende descobrir. Portanto, o que significa agir por impulso? Significa que o homem está agindo como um zumbi, sem qualquer conhecimento daquilo com que está lidando, daquilo que deseja conquistar, do que o motiva. Significa que o homem age em estado de insanidade temporária. É isso que você chama de interessante e feliz? Na minha opinião, só o que pode advir disso é sangue. Agir em contrariedade com os fatos só pode levar à destruição.

(Continua)

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Ayn Rand (1905-1982) foi uma romancista e filósofa russo-americana de grande influência no movimento libertário. Seus livros principais foram A Revolta de Atlas e A Nascente.
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