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PLAYBOY: Em A Revolta de Atlas, você escreveu: "Há dois lados a todas as questões. Um é o lado certo, o outro, errado, mas o meio do caminho é sempre maligno." Não é este um conjunto de valores um tanto preto-e-branco?

RAND: Certamente. Eu enfaticamente defendo uma visão de mundo preto-e-branca. Definamos esse termo. O que se quer dizer pela expressão "preto-e-branco"? Quer dizer bom e mau. Antes de identificar algo como "cinza", como "meio do caminho", é necessário saber o que é preto e o que é branco, porque o cinza é apenas uma mistura dos dois. E quando você estabeleceu que uma alternativa é boa e que a outra é ruim, não há justificativa para a escolha da mistura. Não há jamais qualquer justificativa para a escolha de parte daquilo que se sabe ser mau.

PLAYBOY: Então você acredita em absolutos.

RAND: Sim.

PLAYBOY: O objetivismo, portanto, não pode ser chamado de dogma?

RAND: Não. Um dogma é um conjunto de crenças aceitos por fé; ou seja, sem justificativa ou evidência racional. Um dogma é não mais que fé cega. O objetivismo é o exato oposto. O objetivismo prega que não se deve aceitar qualquer ideia ou convicção a não ser que se possa demonstrar sua veracidade por meio da razão.

PLAYBOY: Se amplamente aceito, não é possível que o objetivismo se torne um dogma?

RAND: Não. Acredito que o objetivismo seja sua própria proteção contra pessoas que possam tentar usá-lo como dogma. Uma vez que o objetivismo requer o uso da própria mente, aqueles que tentam pegar princípios gerais e aplicá-los indiscriminadamente aos concretos de sua existência veem que isso não pode ser feito. São compelidos a rejeitar o objetivismo ou a aplicá-lo apropriadamente. Ou seja, têm que usar suas mentes, seus pensamentos, para aplicar os princípios objetivistas aos problemas específicos de suas vidas.

PLAYBOY: Você já se disse contrária à fé. Você acredita em Deus?

RAND: Certamente não.

PLAYBOY: Há uma citação sua que diz: "A cruz é o símbolo da tortura, do sacrifício do ideal ao não-ideal. Eu prefiro o símbolo do dólar." Você de fato acredita que dois mil anos de cristianismo podem ser resumidos à palavra "tortura"?

RAND: Primeiramente, eu nunca disse isso. Não é do meu estilo. Nem literário, nem intelectual. Eu não digo preferir o símbolo do dólar - essa é uma tolice barata, e por favor não deixe de publicar isto. Eu não sei da origem dessa citação em particular, mas o significado do símbolo do dólar é esclarecido em A Revolta de Atlas. Como explicado claramente na história, é o símbolo das livres trocas e, portanto, das livres mentes. Uma mente livre e uma economia livre são corolários. Uma não pode existir sem a outra. O símbolo do dólar, enquanto símbolo de um país livre, é o símbolo da mente livre. Mais que isso, uma hipótese histórica bastante provável, embora nunca provada, é que o símbolo do dólar advém das iniciais dos Estados Unidos. É o que tenho a dizer sobre isso. Agora, deixe-me falar sobre a cruz. O que é correto é que eu de fato considero a cruz o símbolo do sacrifício do ideal ao não-ideal. Não é isso que ela significa? Cristo, na filosofia cristã, é o ideal humano. Ele personifica aquilo que os homens devem se esforçar para emular. Contudo, de acordo com a mitologia cristã, ele morreu na cruz não por seus próprios pecados, mas pelos pecados de pessoas não-ideais. Em outras palavras, um homem de virtude perfeita foi sacrificado por homens que eram viciosos e que deviam aceitar aquele sacrifício. Se eu fosse cristã, nada me deixaria mais indignada: a noção de sacrifício do ideal ao não-ideal, de virtude ao vício. E é em nome desse símbolo que se pede os homens se sacrifiquem aos seus inferiores. É precisamente dessa maneira que o simbolismo é usado. Isso é tortura.

PLAYBOY: Nenhuma religião, em sua estimativa, jamais foi capaz de oferecer algo de valor à vida humana?

RAND: Enquanto religião, não - no sentido de crença cega, de crença sem base ou contrária aos fatos da realidade e às conclusões da razão. A fé, como tal, é extremamente deletéria à vida humana: é a negação da razão. Mas deve-se lembrar que a religião é uma forma primitiva de filosofia, que as primeiras tentativas de explicar o universo e dar ao homem uma estrutura coerente de referência e um código moral foram feitas pela religião, antes que o homem se desenvolvesse o suficiente para chegar à filosofia. E, enquanto filosofias, algumas religiões possuem valiosos ensinamentos morais. Podem ter boas influências ou princípios apropriados, porém num contexto muito contraditório e - como dizer? - numa base perigosa e maligna: a fé.

PLAYBOY: Então você diria que se tivesse que escolher entre o símbolo da cruz e o símbolo do dólar, você escolheria o dólar?

RAND: Eu não aceitaria essa escolha. Em outras palavras: se eu tivesse que escolher entre fé e razão, eu nem consideraria possível escolher. Enquanto humano, deve-se escolher a razão.

PLAYBOY: Você considera ricos empresários como os Fords e os Rockefellers imorais porque usam suas riquezas para caridade?

RAND: Não. É privilégio deles, se desejam fazer isso. Minhas opiniões a respeito da caridade são muito simples. Não a considero uma virtude maior e, acima de tudo, não a considero um dever moral. Não ha nada de errado em ajudar outras pessoas, se elas são dignas de ajuda e se você pode ajudá-las. Eu considero a caridade uma questão menor. O que eu combato é a noção de que a caridade é um dever moral e uma virtude primária.

PLAYBOY: Qual é o lugar da compaixão no seu sistema filosófico?

RAND: Eu considero a compaixão apropriada somente àqueles que sejam vítimas inocentes, mas não para com aqueles que são moralmente culpados. Se uma pessoa sente compaixão pelas vítimas de um campo de concentração, não pode senti-la pelos torturadores. Se uma pessoa sente compaixão pelos torturadores, trata-se de um ato de traição moral para com as vítimas.

PLAYBOY: Seria contrário aos princípios objetivistas sacrificar-se por outra pessoa, colocando-se na frente de uma bala que vai atingi-la?

RAND: Não. Depende das circunstâncias. Eu me colocaria no caminho da bala se ela fosse direcionada ao meu marido. Não é um auto-sacrifício morrer protegendo aquilo que você valoriza: se o valor é grande o bastante, você não se importa em existir sem ele. Isso se aplica a qualquer suposto sacrifício em prol daqueles que se ama.

PLAYBOY: Você estaria disposta a morrer por sua causa e seus seguidores devem estar dispostos a morrer por ela? Para o objetivista verdadeiramente anti-sacrifício, há alguma causa que valha sua própria vida?

RAND: A resposta a isso está bem explicada em meu livro. Em A Revolta de Atlas, eu explico que o homem deve viver e, se necessário, lutar por seus valores - porque o processo de viver consiste na conquista de valores. O homem não sobrevive automaticamente. Ele deve viver como um ser racional e não aceitar menos que isso. Ele não pode sobreviver como um bárbaro. Mesmo o mais simples dos valores, como a comida, deve ser criado pelo homem, deve ser plantado, deve ser produzido. O mesmo é verdadeiro em relação a suas conquistas mais importantes e interessantes. Todos os valores têm que ser ganhos e mantidos pelo homem e, se desafiados, ele deve estar disposto a lutar e morrer, se preciso, por seu direito de viver como um ser racional. Você me pergunta se eu estaria disposta a morrer pelo objetivismo. Sim, estaria. Porém, o que é mais importante, eu estou disposto a viver por ele - o que é muito mais difícil.

PLAYBOY: Sua ênfase na razão a coloca em conflito filosófico com autores, romancistas e poetas contemporêneos - muitos dos quais se admitem como místicos ou irracionalistas. Por que isso ocorre?

RAND: Porque a arte tem uma base filosófica e as tendências filosóficas de hoje em dia são formas de neo-misticismo. A arte é uma projeção das visões fundamentais do artista em relação ao homem e à existência. Já que a maioria dos artistas não desenvolve uma filosofia independentemente, eles absorvem, consciente ou inconscientemente, as influências filosóficas mais conspícuas de seu tempo. A maior parte da literatura atual é um reflexo preciso da filosofia contemporânea - olhe para ela!

PLAYBOY: Um escritor não deve refletir o seu tempo?

RAND: Não. Um escritor deve ser um ativo líder intelectual de seu tempo, não um seguidor passivo de qualquer fluxo. Um escritor deve moldar os valores de sua cultura, deve projetar e concretizar os valores da vida humana. Essa é a essência da escola romântica de literatura, que quase desapareceu da cena literária atual.

PLAYBOY: O que nos coloca em qual posição, literariamente?

RAND: No beco sem saída do naturalismo. O naturalismo defende que o escritor deve ser um fotógrafo passivo ou um repórter que deve transcrever acriticamente o que quer que ele observe a seu redor. O romantismo defende que o escritor não deva simplesmente mostrar as coisas tais quais são a determinado momento mas, para citar Aristóteles, "como podem ser e devem ser".

PLAYBOY: Você diria que é o último representante dos românticos?

RAND: Ou o primeiro de seu retorno, para usar uma fala de um de meus personagem em A Revolta de Atlas.

PLAYBOY: Qual a sua avaliação da literatura contemporânea em geral?

RAND: Filosoficamente, imoral. Esteticamente, aborrecida. Está se degenerando, dedicando-se exclusivamente a estudos de depravação. Não há nada mais desinteressante que a depravação.

PLAYBOY: Há algum romancista que você admire?

RAND: Sim, Victor Hugo.

PLAYBOY: Algum romancista moderno?

RAND: Não há ninguém que eu admire entre os escritores ditos sérios. Prefiro a literatura popular atual, que é a remanescência do romantismo. Dela, meu escritor preferido é Mickey Spillane.

PLAYBOY: Por que gosta dele?

RAND: Por que ele é, primariamente, um moralista. De forma primitiva, na forma de um romance policial, ele apresenta o conflito do bem e do mal, do preto e do branco. Ele não mostra nenhuma mistura cinzenta repulsiva em que há canalhas indistintos dos dois lados. Apresenta um conflito irreconciliável. Como escritor, ele é brilhante no aspecto da literatura que eu considero mais importante: o enredo.

PLAYBOY: O que você pensa de Faulkner?

RAND: Não muito. Bom estilista, mas praticamente ilegível em conteúdo - li muito pouco dele.

PLAYBOY: E quanto a Nabokov?

RAND: Li somente um livro e meio dele - o meio foi Lolita, que não consegui terminar. Brilhante em estilo, escreve muito belamente, mas seus assuntos, seu senso de vida e sua visão do homem são tão malévolos que nenhuma quantidade de habilidade artística pode justificá-los.

(Continua)

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Ayn Rand (1905-1982) foi uma romancista e filósofa russo-americana de grande influência no movimento libertário. Seus livros principais foram A Revolta de Atlas e A Nascente.
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