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Tradução do texto compilado por Edward S. Ellis.

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Um dia, na Câmara dos Representantes, um projeto de lei foi apresentado propondo apropriar dinheiro em benefício de uma viúva de um distinto comandante naval. Vários belos discursos foram feitos em seu favor. O Presidente da Câmara estava prestes a encerrar a questão quanto Crockett se levantou:

"Sr. Presidente, eu tenho tanto respeito pela memória do falecido e tanta simpatia pelo sofrimento da que vive, se houver algum sofrimento, quanto qualquer homem nesta Câmara, mas nós não devemos permitir que nosso respeito pelos mortos ou que nossa simpatia por uma parte dos que vivem nos levem a cometer um ato de injustiça em favor de alguém. Eu não tomarei parte no argumento que pretende provar que o Congresso não tem poder de se apropriar desse dinheiro como um ato de caridade. Todo aquele sobre este chão sabe disso. Nós temos o direito, como indivíduos, de dar tanto de nosso próprio dinheiro quanto desejarmos em caridade; mas como membros do Congresso nós não temos direito de nos apropriarmos de um dólar do dinheiro público. Alguns eloqüentes apelos nos têm sido feitos com o argumento de que há uma dívida para com o falecido. Sr. Presidente, o falecido viveu muito tempo depois do fim da guerra; ele estava em serviço até o dia de sua morte e eu nunca ouvi dizer que o governo tinha qualquer débito para com ele.

"Todo homem nesta Câmara sabe que não há um débito. Nós não podemos, sem a mais grosseira corrupção, nos apropriarmos desse dinheiro como se fosse para um pagamento de um débito. Nós não temos autoridade alguma para nos apropriarmos dele como caridade. Sr. Presidente, eu disse que nós temos o direito de dar tanto do nosso dinheiro quanto desejarmos. Eu sou o homem mais pobre sobre este chão. Eu não posso votar por esse projeto, mas darei meu pagamento de uma semana para a viúva, e se todo membro do Congresso fizer o mesmo, conseguiremos mais do que pede o projeto."

Ele se sentou. Ninguém respondeu. O projeto foi votado e, em vez de passar unanimemente, como todos supunham, e como, sem dúvida, passaria se não fosse por aquele discurso, ele não recebeu mais que alguns votos e foi rejeitado.

Mais tarde, quando perguntado por um amigo por que ele se opusera à apropriação, Crockett deu esta explicação:

"Muitos anos atrás, eu estava numa noite em pé nos degraus do Capitólio com alguns outros membros do Congresso, quando nossa atenção foi atraída por uma grande luz que vinha de Georgetown. Era evidentemente um grande incêndio. Nós pulamos numa charrete e nos dirigimos até lá o mais rápido que pudemos. Apesar de tudo o que foi feito, muitas casas foram queimadas e muitas famílias ficaram desabrigadas, e, além disso, algumas delas perderam tudo a não ser as roupas que vestiam. O tempo estava muito frio, e quando eu vi tantas mulheres e crianças sofrendo, eu senti que algo deveria ser feito por elas. Na manhã seguinte uma lei foi introduzida se apropriando de $20.000 para a assistência delas.

"No verão seguinte, quando era hora de pensar sobre a eleição, eu decidi fazer uma caminhada entre os garotos de meu distrito. Eu não tinha oposição lá, mas, como a eleição estava um pouco distante, eu não sabia o que poderia acontecer. Quando cavalgava certo dia numa parte de meu distrito na qual eu era mais desconhecido que em qualquer outra, eu vi um homem arando um campo e vindo em direção da estrada. Eu acelerei meu passo de forma que nós nos encontrássemos quando ele chegasse à cerca. Quando o homem se aproximou, eu lhe dirigi a palavra. Ele respondeu polidamente, mas, como eu pensei, de forma fria.

"Eu comecei: 'Bom, amigo, eu sou um desses infelizes seres chamados candidatos, e—'

"'Sim, eu o conheço; você é o Coronel Crockett, eu já o vi uma vez anteriormente, e votei em você na última vez em que foi eleito. Suponho que esteja em campanha agora, mas é melhor que você não desperdice o seu tempo ou o meu. Eu não votarei em você novamente.'

"Aquele foi um golpe violento... Eu implorei para que ele me explicasse qual era o problema.

"'Bom, Coronel, não vale a pena gastar meu tempo ou palavras nisso. Eu não vejo como possa ser reparado, mas você deu um voto no último inverno que mostra que ou você não tem capacidade de entender a Constituição, ou que não possui a honestidade e a firmeza para ser guiado por ela. Em todo caso, você não é o homem para me representar. Mas perdoe-me por me expressar dessa forma. Eu não pretendo me arrogar do privilégio de eleitor de me dirigir diretamente ao candidato com o propósito de insultá-lo ou machucá-lo. Eu quero apenas dizer que seu entendimento da Constituição é bastante diferente do meu; e eu direi a você o que, a não ser por minha rudeza, eu não deveria, que acredito que você seja honesto. ... Mas um entendimento da constituição diferente do meu eu não posso negligenciar, porque a Constituição, para valer algo, precisa ser tida como sagrada, e rigidamente observada em todas as suas provisões. O homem que detém o poder e a mal-interpreta é mais perigoso quanto mais honesto for.'

"'Eu admito a verdade de tudo o que você diz, mas deve haver algum engano, pois eu não me lembro de ter dado nenhum voto no último inverno em relação a nenhuma questão constitucional.'

"'Não, Coronel, não há engano. Embora eu viva aqui nos bosques e raramente saia de casa, eu pego os papéis de Washington e leio muito cuidadosamente todos os procedimentos do Congresso. Meus papéis dizem que no último inverno você votou em favor de uma lei que se apropriaria de $20.000 para dar a alguns atingidos por um incêndio em Georgetown. Isso é verdade?'

"'Bem, meu amigo, devo confessar. Você me pegou. Mas certamente ninguém reclamará que um grande e rico país como o nosso deva dar a soma insignificante de $20.000 para aliviar de suas mulheres e crianças que sofrem, particularmente com um Tesouro cheio e transbordante, e estou certo de que, se você estivesse lá, teria feito o mesmo que eu fiz.'

"'Não é a quantia, Coronel, de que me queixo; é do princípio. Em primeiro lugar, o governo não deve ter em seu Tesouro nada mais que o necessário para a execução de seus propósitos legítimos. Mas isso não tem nada a ver com a questão. O poder de coletar e despender dinheiro à vontade é o poder mais perigoso de que se pode investir um homem, particularmente sob nosso sistema de coleta de receita através de uma tarifa, a qual alcança todo homem no país, não importa quão pobre ele seja, e quanto mais pobre ele for, mais ele paga em proporção a seus meios. O que é pior, ela recai sobre ele sem o seu conhecimento de onde o peso se centrará, pois não há um homem nos Estados Unidos que poderá jamais adivinhar quanto paga ao governo. Então você vê que, enquanto está contribuindo para aliviar uma pessoa, você está tirando de milhares que estão ainda piores do que aquela. Se você tivesse o direito de dar qualquer coisa, a quantia a ser dada estaria a seu critério, e você teria tanto direito de dar $20.000.000 como $20.000. Se você tem o direito de dar para um, você tem o direito de dar a todos; e, como a Constituição não define caridade nem estipula a quantia, você tem liberdade de dar a qualquer um e tudo o que você acreditar, ou professar acreditar, é uma caridade, e de qualquer quantia que você considerar apropriada. Você facilmente perceberá que grande porta isso abriria para a fraude, para a corrupção e para o favoritismo, por um lado, e para o roubo das pessoas, do outro. Não, Coronel, o Congresso não tem direito de fazer caridade. Os membros individuais podem fazer o que quiserem com seus próprios dinheiros, mas eles não têm direito de tocar em um dólar do dinheiro público para esse propósito. Se duas vezes mais casas tivessem queimado neste condado do que em Georgetown, nem você nem qualquer outro membro do Congresso pensariam em apropriar-se de m dólar para nosso alívio. Há cerca de duzentos e quarenta membros no Congresso. Se eles tivessem mostrado simpatia pelos atingidos contribuindo cada um com o pagamento de uma semana, conseguiriam mais de $13.000. Há muitos homens ricos em Washington e próximo de lá que poderiam ter dado $20.000 sem privarem-se nem mesmo de um luxo da vida. Os congressistas escolheram manter seus próprios dinheiros, os quais, se os relatórios são verdadeiros, alguns deles não gastam muito honradamente; e as pessoas em Washington, sem dúvidas, o aplaudiram por aliviá-las da necessidade de dar dando o que não era seu para dar. As pessoas delegaram ao Congresso, pela Constituição, o poder de fazer certas coisas. Para fazê-las, é autorizado coletar e pagar dinheiros, e para nada mais. Tudo além disso é uma usurpação, e uma violação da Constituição.

"'Então você vê, Coronel, que você violou a Constituição no que eu considero ser um ponto vital. É um precedente carregado de perigo ao país, pois quando o Congresso começa a estender seu poder além dos limites da Constituição, não há limite para ele, e nenhuma segurança para o povo. Eu não tenho dúvidas de que você tenha agido honestamente, mas isso não melhora seu ato de forma alguma, exceto no que lhe concerne pessoalmente, e percebe que não posso votar em você.'

"Digo-lhe que me senti paralisado. Eu vi que se eu tivesse oposição e que se aquele homem continuasse a falar, ele poria os outros a falar e naquele distrito eu estaria arruinado. Eu não pude respondê-lo, e o fato é que eu estava tão completamente convencido de que ele estava certo que eu não queria. Mas eu precisava satisfazê-lo e disse:

"'Bom, meu amigo, você acertou em cheio o prego quando disse que eu não tinha sensibilidade suficiente para entender a Constituição. Eu pretendia ser guiado por ela, e pensava tê-la estudado a fundo. Eu já ouvi muitos discursos no Congresso sobre os poderes do Congresso, mas o que você disse aqui em seu arado fez muito mais sentido do que todos os belos discursos. Se eu tivesse assumido a opinião que você tem, eu teria posto minha cabeça ao fogo antes de ter dado aquele voto; e se você me perdoar e votar em mim novamente, se eu voltar a votar por outra lei inconstitucional, eu desejo levar um tiro.'

"Ele respondeu rindo: 'Sim, Coronel, você já prometeu isso antes, mas eu confiarei em você novamente com uma condição. Você diz que está convencido de que seu voto foi errado. Seu reconhecimento disso fará um bem maior do que uma punição. Se enquanto você caminhar no distrito, você disser às pessoas sobre esse voto e que você está convencido de que ele foi errado, eu não apenas votarei em você, mas farei o que puder para enfrentar a oposição e, talvez, exercer alguma pequena influência nesse sentido.'

"'Se eu não fizer isso', eu disse, 'eu desejo levar um tiro; e para convencê-lo de que eu sou sincero no que digo, eu voltarei aqui em uma semana ou dez dias, e se você conseguir reunir algumas pessoas, eu farei um discurso para elas. Organize um churrasco, eu pagarei por ele.'

"'Não, Coronel, não há pessoas ricas nesta área, mas temos muitas provisões para contribuir para um churrasco, e algumas para dar àqueles que não têm nenhuma. A colheita estará encerrada em alguns dias e nós poderemos tirar um dia para um churrasco. Será nesta quinta-feira; providenciarei para que o churrasco esteja organizado no sábado da próxima semana. Venha à minha casa na sexta-feira e nós iremos juntos, e eu prometo que você terá uma platéia muito respeitável para vê-lo e ouvi-lo.'

"'Bom, estarei aqui. Mas quero saber mais uma coisa antes de dizer até logo. Preciso saber seu nome.'

"'Meu nome é Bunce.'

"'Não é Horatio Bunce?'

"'Sim.'

"'Bem, sr. Bunce, eu nunca o vi antes, embora você diga que me viu, mas eu lhe conheço muito bem. Estou feliz que o tenha encontrado, e muito orgulhoso de poder esperar tê-lo como amigo.'

"Foi um dos maiores golpes de sorte da minha vida encontrar aquele homem. Ele se misturava pouco com as outras pessoas, mas era muito conhecido por sua notável inteligência e incorruptível integridade, e por ter um grande coração, cheio de bondade e benevolência, qualidades as quais não se monstravam apenas em palavras, mas em atos. Ele era o oráculo de todos à sua volta, e sua fama havia se estendido muito além de seu círculo imediato de conhecidos. Embora eu jamais o tivesse encontrado antes, eu havia ouvido muito sobre ele, e se não fosse por esse encontro, é provável que eu tivesse oposição e que fosse derrotado. Uma coisa é certa: nenhum homem poderia agora ser eleito naquele distrito sem aquele voto.

"No horário combinado, eu estava na casa dele, tendo contado nossa conversa para todos que encontrei, e para todo homem com quem passei toda noite, e percebi que isso dava às pessoas interesse e confiança mais fortes em mim do que eu já havia visto manifestar-se anteriormente.

"Embora eu estivesse consideravelmente fatigado quando cheguei à casa dele, e, em circunstâncias normais, devesse ter ido cedo à cama, eu o mantive acordado até a meia-noite, conversando sobre os princípios e as questões do governo, e obtive mais conhecimento real, verdadeiro, sobre eles do que eu havia conseguido em toda a minha vida.

"Eu conheci e vi muito sobre ele desde então, pelo que o respeito. Não, essa não é a palavra — eu o reverencio e o amo mais que a qualquer outro homem vivo, e vou vê-lo duas ou três vezes todo ano; e te direi, senhor, se todo aquele que se diga cristão vivesse, agisse e desfrutasse da vida como ele, a religião de Cristo tomaria o mundo como um relâmpago.

"Mas retorno à minha história. Na manhã seguinte, nós fomos ao churrasco, e, para a minha surpresa, encontrei cerca de mil homens lá. Conheci muitos, e eles e meu amigo me apresentaram aos outros até que eu estivesse bem introduzido — pelo menos todos me conheciam.

"No tempo devido, foi dito que eu falaria a eles. Eles se reuniram em volta de um palanque que foi levantado. Eu abri meu discurso dizendo:

"Concidadãos, eu me apresento a vocês hoje me sentindo como um novo homem. Meus olhos recentemente foram abertos às verdades às quais a ignorância ou o preconceito, ou ambos, escondiam da minha visão. Eu sinto que posso hoje oferecer a vocês um serviço mais valoroso do que jamais pude. Estou aqui hoje mais com o propósito de reconhecer meu erro do que de pedir seus votos. Esse reconhecimento é devido a mim mesmo e a vocês. Se vocês votarão em mim, é uma questão de suas considerações somente.'

"Eu prossegui contando a eles sobre o fogo e sobre meu voto pela apropriação e então contei-lhes por que eu estava agora convencido de ter agido errado. Eu finalizei dizendo:

"'E agora, concidadãos, devo dizer a vocês que a maior parte do discurso que vocês ouviram com tanto interesse foi simplesmente uma repetição dos argumentos utilizados por seu vizinho, o sr. Bunce, para me convencer de meu erro.

"Foi o melhor discurso que fiz em minha vida, mas ele deve ganhar os créditos. E agora eu espero que ele esteja satisfeito com minha conversão e que ele vá subir aqui e dizer-lhes isso.'

"Ele subiu no palanque e disse:

"Concidadãos, me dá grande prazer aceitar o pedido do Coronel Crockett. Eu sempre o considerei um homem completamente honesto e estou satisfeito que ele tenha honradamente feito tudo o que havia prometido hoje.

"Ele desceu e ouviu-se um grito por Davy Crockett como nunca havia sido visto antes.

"Eu não sou muito dado a lágrimas, mas fui tomado por um sufoco então e senti algumas grandes gotas rolando por minha face. E eu lhe digo agora que a lembrança daquelas poucas palavras ditas por aquele homem e daquele grito sincero e caloroso dado por aquelas pessoas vale mais para mim do que todas as honras que eu já recebi e toda a reputação que eu já fiz ou farei como membro do Congresso.

"Agora, senhor", concluiu Crockett, "você sabe por que eu fiz aquele discurso ontem.

"Há uma coisa agora à qual eu chamarei sua atenção. Você lembra que eu me propus a dar o pagamento de uma semana. Há aqui na Cãmara muitos homens muito ricos — homens que não dão qualquer valor ao gasto do pagamento de uma semana, ou o de uma dúzia deles, por um jantar ou por uma festa de vinhos, quando podem conseguir algo com isso. Alguns daqueles mesmos homens fizeram vários discursos sobre a grande dívida de gratidão que o país tinha para com o falecido — uma dívida que não poderia ser saldada com dinheiro — e sobre a insignificância e falta de valor do dinheiro, particularmente uma soma tão pequena quanto $10.000, em relação à honra da nação. Contudo, nenhum deles respondeu à minha proposta. O dinheiro com eles não é nada mais que lixo quando é do povo. Mas é a coisa pela qual a maioria deles se esforça para conseguir, e muitos sacrificam a honra, a integridade e a justiça para obtê-lo."
Os detentores de cargos políticos não são mais que reflexos da crença dominante — boa ou má — entre o eleitorado.

Horatio Bunce é um grande exemplo de cidadania responsável. Se existissem mais como ele, nós veríamos muitos novos rostos nos cargos públicos; ou, como no caso de Davy Crockett, um novo Crockett.

Tanto para novos rostos ou para novos Crocketts, nós devemos olhar para o Horatio em nós mesmos!

- Leonard E. Read
O coronel David Crockett (1786-1836) foi um soldado e político, além de herói popular americano. Foi representante pelo Tennessee na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos e lutou na Revolução do Texas.
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